Gás russo – consequências e dependências

A Gazprom da Rússia anunciou a interrupção do fornecimento de gás natural à Polónia e à Bulgária, aumentando as tensões entre o Kremlin e a Europa sobre energia e acrescentando nova urgência aos planos para reduzir e, em seguida, acabar com a dependência do continente da Rússia como fornecedor de petróleo e gás.

O QUE FEZ A RÚSSIA FEZ

A gigante de energia russa, controlada pelo Estado, Gazprom, disse que cortava o fornecimento à Polónia e Bulgária porque se recusaram a pagar em rublos russos, como exigiu o presidente Vladimir Putin.

Os líderes europeus dizem que os contratos de gás natural determinam o pagamento em euros ou dólares e isso não pode ser alterado de repente por um lado. A Polónia tomou medidas de longo prazo para se isolar de um corte, como construir um terminal de importação de gás liquefeito que vem de navio, e planeava cancelar o seu acordo de importação com a Gazprom no final do ano de qualquer maneira. A Bulgária diz que tem gás suficiente por enquanto.

O Kremlin alertou para essa possibilidade se os países não pagarem o fornecimento de energia em rublos. Mas a Rússia também depende das vendas de petróleo e gás para financiar seu governo, já que as sanções apertaram o seu sistema financeiro .

Sob o novo sistema de pagamento, o Kremlin disse que os importadores teriam que abrir uma conta em dólares ou euros no terceiro maior banco da Rússia, o Gazprombank, e depois uma segunda conta em rublos. O importador pagava a conta do gás em euros ou dólares e mandava o banco trocar o dinheiro por rublos.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse na quarta-feira que o pagamento em rublos viola as sanções da União Europeia e que as empresas com contratos “não devem atender às exigências russas”.

O QUE MOTIVA  PUTIN?

Como a ordem de Putin para pagamentos em rublos visa “países hostis”, pode ser vista como uma retaliação às sanções que cortaram muitos bancos russos de transações financeiras internacionais e levaram algumas empresas ocidentais a abandonar os seus negócios na Rússia

Os motivos económicos para exigir rublos não são claros porque a Gazprom já tem que vender 80% de seus ganhos estrangeiros por rublos, então o impulso para a moeda russa pode ser mínimo. Outro motivo pode ser político, para mostrar ao público de casa que Putin pode ditar os termos das exportações de gás. E ao exigir pagamentos por meio do Gazprombank, a medida pode desencorajar novas sanções contra esse banco.

Se Putin estava procurando um pretexto para cortar os países que apoiaram a Ucrânia, isso poderia servir a essa função. A Rússia ainda está enviando gás para a Hungria – cujo primeiro-ministro populista Viktor Orban concordou com o acordo de pagamento de Putin – no mesmo sistema de gasodutos.

Simone Tagliapietra, especialista em energia e membro sênior do think tank Bruegel em Bruxelas, disse que “movendo-se dessa maneira, a Rússia está alavancando a fragmentação da UE – é uma estratégia de dividir para governar … e é por isso que precisamos de uma resposta coordenada da UE”.

QUAL É O ESTADO DO FORNECIMENTO DE GÁS PARA A EUROPA?

As sanções coordenadas dos EUA e da União Europeia isentam os pagamentos de petróleo e gás. Trata-se de uma concessão da Casa Branca a aliados europeus que são muitos dependentes da energia da Rússia, que fornece 40% do gás da Europa e 25% de seu petróleo a um custo de US$ 850 milhões por dia.

Muitos não estão satisfeitos com o fato de as concessionárias europeias ainda comprarem energia da Rússia, que em média obteve 43% de sua receita anual do governo com as vendas de petróleo e gás entre 2011 e 2020, segundo a Administração de Informações sobre Energia dos EUA.

A decisão da Rússia de reduzir as vendas de gás fora dos contratos de longo prazo antes da guerra, contribuindo para uma crise de energia no inverno que elevou os preços, serviu como um alerta de que a dependência da Europa da energia russa a deixou vulnerável. A guerra significou uma rápida reavaliação de décadas de política energética em que o gás barato da Rússia sustentava a economia da Europa.

RÚSSIA TAMBEM PERDE

A Rússia poderia, em teoria, enviar petróleo por navio-tanque para outros lugares, como Índia e China, países que têm fome de energia e não participam de sanções.

Mas o gás é outra questão. O sistema de gasodutos de grandes depósitos no norte da Península de Yamal, no norte da Rússia, para a Europa não se conecta ao gasoduto que leva à China. E a Rússia tem apenas instalações limitadas para exportar gás liquefeito por navio.

SOBREVIVERÁ A EUROPA  A UM CORTE TOTAL DE GÁS?

A economia da Europa sofreria sem o gás natural russo, embora o impacto variasse de acordo com a quantidade de uso dos países. As estimativas dos economistas variam muito para a perda de crescimento da economia europeia como um todo. Analistas da Moody’s disseram num estudo recente que um corte total de energia – gás e petróleo – levaria a Europa a uma recessão.

A Alemanha, a maior economia do continente, é fortemente dependente da energia russa. O seu banco central disse que um corte total pode significar 5 pontos percentuais de perda de produção económica e inflação mais alta.

O think tank de Bruegel estimou que a Europa ficaria 10% a 15% abaixo da procura normal para passar pela próxima temporada de aquecimento no inverno, o que significa que medidas excepcionais teriam que ser tomadas para reduzir o uso de gás.

O QUE FAZ A EUROPA PARA REDUZIR A DEPENDÊNCIA DO GÁS RUSSO?

Os líderes europeus disseram que não podem arcar com as consequências de um boicote imediato. Em vez disso, eles planeiam reduzir o consumo do gás. Encomendão mais gás natural liquefeito, que vem de navio; buscar mais gás de gasodutos de lugares como Noruega e Azerbaijão; acelerar a implantação de energia eólica e solar; e empurrando medidas de conservação.

O objetivo é reduzir o uso de gás russo em dois terços até o final do ano e completamente até 2027. Resta saber se esse objetivo pode ser alcançado na prática. Há um limite para o fornecimento de gás liquefeito, com terminais de exportação funcionando na capacidade máxima.

A Alemanha, que não tem terminal de importação, pretende construir dois – mas isso levará anos. A Itália, que recebe 40% do seu gás da Rússia, chegou a acordos para substituir cerca de metade dessa quantidade da Argélia, Azerbaijão, Angola e Congo e procura aumentar as importações do Qatar. E a Europa está sob pressão para reabastecer as suas reservas subterrâneas a tempo da procura de aquecimento do próximo inverno.

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